Por Carolina Henriques, psicóloga clínica e terapeuta familiar e de casal na Partes de Ti (OPP n.º 24139)
“Não sei em que lugar estás. Se estás dentro ou fora do mar. Se sabes nadar, ou se tens medo das ondas. Sei que sabes que o mar existe e mais cedo ou mais tarde, ele aparece no nosso caminho. Esta reflexão não é sobre o mar mas sobre mergulhar no luto ao longo da vida.”
Os lutos que passam despercebidos
Todos sabemos que nascemos e morremos. Entre a vida e a morte, conquistamos e perdemos coisas e pessoas. Viver é também aceitar que a roupa que um dia vestimos e aquela que nos vestiram deixa de servir, não só porque crescemos fisicamente mas porque por escolha própria, decidimos mudar.
A nossa pele é revestida por lutos simbólicos e o nosso coração acumula as memórias daqueles que amamos. Afinal, ao longo da vida enfrentamos desde cedo lutos que muitas vezes passam despercebidos.
Vejamos, como tantas vezes lidamos com a imprevisibilidade e com os desafios das perdas: onde guardamos os nossos pertences de criança? O que aconteceu ao nosso brinquedo favorito? Quando mudamos de casa, como arrumamos as memórias que ali ficaram nas paredes? E os nossos animais de estimação? Os que tivemos e que sentimos falta?
E a parentalidade? Qual o lugar dos bebés sonhados e que não chegam a nascer? E os bebés sonhados, apelidados e registados, que dão lugar a lápides antes que o tempo passe?
E o corpo da mulher, que muda e se transforma na gravidez e no pós-parto. Como fica a relação dela com o seu corpo?
E se pensarmos nos bebés que nascem, crescem e dão lugar a pessoas diferentes daquelas que foram um dia imaginadas… Penso nos diagnósticos de doenças crónicas que, por vezes, condicionam a trajetória de vida imaginada.
E as palavras que perdemos ao perdermos as pessoas fisicamente? “Nunca mais vou chamar esta pessoa, nunca mais vou sentir o toque das suas mãos…”; “Nunca mais vou ter comigo aquele meu animal…”.
“Nunca mais?” Isso não será tempo a mais?
O luto como um mar
O país vizinho de Portugal chama ao que apelidamos de luto “duelo”, que traduzido à letra significa dor. O luto parece ser o lugar onde enfrentamos perdas que doem. Lugares que todos nós, um dia ou noutro, mais cedo ou mais tarde, vivemos e de onde precisamos sair.
Num paralelismo com o mar, o luto pode ser o lugar onde mergulhamos e olhamos para a perda, e a capacidade de vir à superfície e caminhar na areia sabendo que o mar está ali, a necessidade de continuar a vida.
Neste compasso, que não é linear ou fásico, há cheiros, sonhos, objetos, pessoas que nos levam a mergulhar subitamente no mar: o cheiro de um perfume que um dia improvável aparece e que reacende a ausência; um som que ecoa a memória daquela pessoa e/ou daquele animal; um sonho que confunde a mente e apaga, momentaneamente, a realidade; uma música, uma palavra, uma fotografia… que se cruzou connosco.
O amor (quando existe) fica de quem nos morre e por vezes duvidamos que isso seja suficiente. É que neste mar, nem sempre há nadadores salvadores que se apercebam do quão fundo estamos mergulhados. Por vezes, escondemos que precisamos de sentir e de chorar. Outras vezes, sem esconder a dor, queremos apenas rir e seguir mas os outros insistem que precisamos de sentir. Parece confuso, não é? Não podemos viver sempre em dor. Dizem que temos de aceitar e esse processo não é linear…
O tempo não cura, mas traz outros dias
Não há tempo que apague as memórias de tudo o que fomos, fizemos e sentimos. O futuro, esse lugar cheio de lugares vazios, é também sítio de histórias, memórias e de tempo. O tempo não cura. O tempo trará uns dias mais calmos, com um mar suave, e outros dias agitados, com o mar picado.
Caminhemos pela areia e que mergulhar possa ser uma escolha a cada momento.
Com amor,
Carolina
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