Por Catarina Noronha, psicóloga clínica na Partes de Ti (OPP n.º 26446)
Ser pai não depende apenas de ter um filho nos braços: é um vínculo que nasce no coração. E, mesmo na perda, o amor permanece, transforma-se, reinventa-se e encontra novas formas de estar presente.
Falar sobre o que quase nunca se fala
A perda gestacional é uma dor profunda e, muitas vezes, silenciosa. Habitualmente, o olhar volta-se para a mulher que perde, o que é natural e necessário, mas há um outro lado que permanece tantas vezes esquecido e silenciado: o do pai.
Sendo esta uma realidade muito mais frequente do que se imagina, é urgente dar visibilidade ao luto masculino, tantas vezes “não reconhecido” e vivido em silêncio, atrás do papel de “forte” e “apoiante”.
Este texto é dedicado a ti que foste, por breves dias, semanas ou meses, pai de um bebé que partiu cedo demais. E também a quem o acompanha, com amor e respeito, neste caminho de luto.
O luto do pai também é real
Embora pouco se fale sobre isso, os pais também sofrem. Tristeza, vazio, culpa, impotência, isolamento: sentimentos reais, mas frequentemente silenciados por crenças sobre a masculinidade, como “o homem tem de ser forte”, “não deve chorar” ou “precisa de apoiar a companheira”.
“Parecia que eu não podia estar triste. Que o meu papel era ser o apoio dela. Mas também me doeu. E muito.”
Tudo isto pode levar o homem a sentir que não tem direito à dor, e a adotar diferentes formas de lidar com o sofrimento: mergulhar no trabalho, ocupar-se de tarefas práticas ou procurar distrações. Pode até parecer distante emocionalmente, mas não é por não sentir. É, muitas vezes, por não saber como expressar o que sente, ou por acreditar que não deve ou não pode fazê-lo.
A verdade é que o luto masculino existe. O reconhecimento e a validação deste sofrimento, pelas companheiras, profissionais de saúde e redes de apoio, fazem toda a diferença. Todo o pai tem direito à dor, ao choro, à lembrança e a ser cuidado. Reconhecer que o pai também perdeu é o primeiro passo para cuidar da dor e permitir que ela encontre o seu lugar.
Construir (e reconstruir) o sentido de pai
Mesmo nas fases iniciais da gravidez, muitos homens já se sentem pais. Ver o embrião na ecografia, imaginar o futuro, escolher um nome… tudo isto faz parte da identidade paterna em formação. Quando se perde um bebé, perde-se também esse futuro imaginado.
Mas a ligação pode continuar, através de pequenos gestos simbólicos que mantêm viva a memória e o vínculo: guardar uma ecografia, escrever uma carta, plantar uma árvore, acender uma vela em datas especiais. Cada gesto pode ajudar a integrar a perda e a honrar o amor que existiu, e continua a existir.
Como cuidar deste pai em luto: 7 passos
Se estás a viver este processo, ou a acompanhar alguém que está, aqui ficam 7 passos de cuidado e reconhecimento:
1. Permite-te sentir
Tens o direito de estar triste. O bebé também era teu. Não precisas de “ser forte” o tempo todo. Dar nome às emoções pode ajudar a compreender e processar a dor: “sinto-me vazio”, “tenho medo de tentar de novo”, “sinto que é injusto”.
2. Comunica com a tua companheira
Partilhem o que sentem, mesmo que de formas diferentes. Escutar e estar presente são gestos de cuidado. Perguntas simples, como “como estás, de verdade?” ou “o que precisas de mim?”, podem abrir espaço para uma partilha genuína e muito valiosa.
3. Fala (ou escreve) sobre o que sentes
Nem sempre é fácil pôr em palavras o que se vive. Escrever um diário, uma carta ao bebé ou conversar com alguém de confiança, ou com um terapeuta, pode ajudar a dar significado à experiência.
4. Mantém o vínculo, se fizer sentido para ti
Guardar uma ecografia, um objeto, ou realizar um ritual simbólico, o que fizer sentido para ti, são formas de continuar a amar, de forma diferente. O amor não desaparece, transforma-se.
5. Cuida do corpo, ele também sente o luto
Sono, alimentação e movimento são fundamentais. O corpo é parte deste processo, e o autocuidado é essencial para poderes estar presente, por ti e pelos que amas.
6. Pede espaço e apoio
É legítimo dizer “também preciso de ser cuidado”. Procura apoio na tua rede (amigos, família, grupos de partilha) ou considera acompanhamento psicológico individual ou de casal. Não estás sozinho.
7. Dá tempo ao tempo
O luto não tem prazos nem formas certas. Cada um vive-o à sua maneira e no seu tempo. Haverá dias difíceis e outros mais leves, ondas que vêm e vão. Permite-te navegar entre elas, com gentileza. “Voltar ao normal” não é esquecer, é aprender a viver com esta perda, que não se apaga, apenas se transforma.
Não tens de viver isto sozinho
Sabemos que encontrar palavras (ou até coragem) para pedir ajuda pode ser difícil. Mas é precisamente no reconhecimento da dor que começa o cuidado. Na nossa equipa, acreditamos que cada perda é única e que cada pai, mãe ou casal merece um espaço seguro, de acolhimento, escuta, partilha e reconstrução.
Se sentes que este momento está a ser demasiado pesado, confuso ou avassalador, estamos aqui para caminhar contigo. Com tempo, com respeito e com presença. Afinal, partilhar é um ato de amor, contigo e com o bebé que partiu.
Com carinho,
Catarina
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