Por Iara Videira, psicóloga clínica na Partes de Ti (OPP n.º 25681)

Imagina-te a viver num mundo onde tudo parece feito para os outros. Onde a tua forma de sentir, expressar, pensar e ver o que te rodeia não encaixa na forma como os outros o fazem. Como se o teu “normal” fosse sempre visto como “estranho”. Se isto te soa familiar… talvez não haja nada de errado contigo. Talvez apenas penses de forma diferente e possamos estar a falar de neurodivergência.

O que é a neurodivergência

A palavra neurodivergência tem vindo a ganhar destaque nos últimos tempos e isto deve-se, em grande parte, a uma mudança de perspetiva. Começamos a perceber que muitas das dificuldades enfrentadas em circunstâncias educativas e profissionais não resultam apenas do indivíduo em si. Estas devem-se igualmente a contextos desenhados para um padrão específico de funcionamento cognitivo (os chamados neurotípicos, isto é, as pessoas que não têm nenhuma condição do neurodesenvolvimento).

Do ponto de vista científico, o termo neurodivergência descreve cérebros que funcionam de forma diferente do que a sociedade considera como “padrão”. Isto inclui condições como PHDA (Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção), autismo, dislexia e discalculia, entre outras.

Somos todos neurodivergentes?

Quando perguntamos se somos todos neurodivergentes, estamos perante um paradoxo. Porque sim, cada um de nós tem a sua singularidade que nos torna únicos. Mas a neurodivergência refere-se a condições específicas que moldam a forma como a pessoa percebe e interage com o mundo. O que foi visto, durante muito tempo, como desajuste, erro ou excesso.

O que antes era visto como falha pode hoje ser observado como uma potencialidade (como a criatividade, a sensibilidade sensorial, entre outras). Em vez de encarar essas diferenças como erros a serem corrigidos, uma abordagem neuroafirmativa convida-nos a compreendê-las como parte natural da variação humana, tal como outras características físicas e culturais que nos diferenciam. Por isso, talvez a verdadeira questão não seja se somos todos neurodivergentes, mas se estamos preparados para valorizar e acolher todas as formas de ser e de pensar.

Porque é que se fala tanto disto agora?

Talvez seja porque começamos, finalmente, a cansar-nos das normas da sociedade que nos exigem uniformidade. Talvez porque novas vozes se levantam e exigem ser ouvidas, mostrando que a diversidade não é apenas sobre características físicas ou culturais, mas também sobre a forma como sentimos e pensamos. Pesquisas científicas ajudaram a ampliar a compreensão de toda esta possibilidade de perfis, assim como os movimentos sociais deram voz a pessoas que antes eram invisíveis ou silenciadas.

Nunca se falou tanto sobre saúde mental, inclusão e diversidade, e a neurodivergência tornou-se, felizmente, parte central dessa conversa. A discussão sobre o tema toca-nos a todos. Obriga-nos a questionar a ideia de “normalidade” e a refletir sobre a forma como a sociedade está estruturada para acomodar diferentes formas de sentir, pensar e aprender.

Claro que não queremos romantizar as dificuldades, mas podemos reconhecer que há riqueza onde antes se via apenas desvio. E, claro, refletir sobre que acomodações e adaptações devem ser feitas nos contextos educativos e profissionais (como, por exemplo, pedir informações mais concretas e enviadas por escrito, ter um horário de entrada e saída mais flexível dentro das horas previstas, poder trabalhar com auscultadores que cancelam ruídos, etc.) para que todas as pessoas sintam que as suas necessidades estão a ser ouvidas e acolhidas.

Se falamos tanto disto agora é porque talvez esteja na hora de aprender, de uma vez por todas, que a mente não se corrige: acolhe-se e compreende-se. Não precisamos de ser todos iguais, precisamos sim de aprender a celebrar e normalizar a diferença.


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