Por Carina Rodrigues Nave, psicóloga clínica e terapeuta familiar na Partes de Ti (OPP n.º 25008)

Neste texto partilho um pouco daquela que é uma das fases mais desafiantes da vida das famílias: a transição para a parentalidade.

Uma das maiores mudanças na vida da família

A chegada de um filho é uma das maiores mudanças (na verdade, das maiores crises) no ciclo de vida das famílias. Não só porque acolhemos uma nova pessoa num espaço que antes era apenas do casal, mas porque também nós nos tornamos novos. De repente, somos chamados a ser mãe ou pai, mesmo sem ter a certeza absoluta do que isso significa.

A transição para a parentalidade não é feita apenas de alegrias e descobertas docinhas e quentinhas. Ela é também feita de dúvidas, perdas e reajustes. Perdemos um pouco da vida que conhecíamos até lá, das nossas rotinas, da intimidade a dois. Perdemos até uma versão de nós mesmos, para dar lugar a uma outra que ainda está a nascer. É um luto silencioso de que quase nunca se fala, mas que está presente em todos os pais que se reinventam para caber na nova vida e na nova família.

Nem sempre o amor é imediato

E, ao mesmo tempo, nasce uma possibilidade: a de nos conhecermos de novo. Muitos pais descrevem que, ao segurar o filho pela primeira vez, sentiram algo que nunca tinham sentido antes: uma espécie de amor arrebatador, que os transformou num instante. Mas, para muitos outros, isto não acontece assim. Há mães e pais que olham para o bebé e sentem sobretudo estranheza, medo, o peso da responsabilidade que acabara de nascer também. E isso não significa que não vão amar profundamente os seus filhos. Significa apenas que, como em qualquer relação, o vínculo também pode precisar de tempo para nascer e florescer.

A parentalidade é, no fundo, uma travessia. Vamos aprendendo a ser, todos os dias, na relação com o filho, no diálogo com o parceiro, no confronto com as nossas próprias histórias. Cada choro pode acordar memórias antigas e cada sorriso pode acender novas esperanças. O bebé chega, mas também chegam à superfície partes de nós que até aqui estavam adormecidas: fragilidades, dúvidas, forças escondidas.

O casal depois da chegada do bebé

É também nesta fase que muitos casais se surpreendem com as mudanças na própria relação. A chegada de um bebé pode aproximar o casal, mas também pode criar distâncias e agudizar sintomas que já moravam na relação. A intimidade já não acontece de forma tão espontânea, a comunicação pode encher-se de tensões, e o trabalho de equipa nem sempre é fácil de manter. No entanto, quando o casal consegue olhar para estas dificuldades com abertura e curiosidade, descobre muitas vezes que esta fase pode ser também uma oportunidade de crescimento conjunto. É no aprender a renegociar papéis e a cuidar um do outro que a relação se fortalece.

Outro aspeto que muitas vezes emerge é a vulnerabilidade. Casais que antes se viam como fortes e seguros podem, de repente, sentir-se pequenos diante da tarefa imensa de cuidar de um bebé. É normal sentir medo de falhar, de não estar à altura, de não saber responder a todas as necessidades. Esta vulnerabilidade, quando acolhida sem julgamento, pode ser uma porta de entrada para uma maior autenticidade e proximidade na relação com o bebé e com o parceiro.

A parentalidade como espelho

Talvez seja por isso que gosto de pensar a parentalidade como um espelho. Ela mostra não só a imagem do bebé, mas também a nossa própria imagem refletida, umas vezes nítida e clara, outras vezes fragmentada e desfocada. Mostra quem fomos, quem somos e quem ainda podemos ser. E, nesse reflexo, cada pai e mãe tem a oportunidade de se reinventar, não no lugar de pais e companheiros perfeitos, mas no lugar de pais e companheiros suficientemente bons para crescer lado a lado um com o outro e com os filhos.

Para mim, enquanto psicóloga, acompanhar famílias nesta fase é testemunhar um processo profundo de transformação. Todos os dias sou testemunha de como a vida se expande, mas também de como é necessário criar espaço interno e relacional para acolher o novo. Vejo pais a confrontar-se com feridas antigas, a perceber que a forma como cuidam hoje de si e do outro está ligada à forma como foram cuidados no passado. E, nesse sentido, a parentalidade pode ser também um caminho de cura, porque nos convida a rever dores antigas e a reinventar a forma como nos ligamos ao outro.

Talvez seja por isso que, apesar de desafiante, esta etapa é tão única. Porque, ao mesmo tempo que nasce um filho, nascem também novos pais. E ser mãe ou pai é, de certa forma, estar sempre a nascer outra vez.


Se estão a atravessar esta fase e sentem que a relação precisa de cuidado, acompanhamos mães, pais e casais em Almada e online. Sabe mais sobre o acompanhamento perinatal ou marca uma consulta.