Por Rita Guedes, psicóloga clínica na Partes de Ti (OPP n.º 30513)

Escrevi este texto a pensar nas tantas transformações que a parentalidade traz. Desejo que estas palavras possam apoiar-te nesse caminho. Ouvir as nossas partes é criar confiança na parentalidade.

Somos além do que fazemos

Quando é que nasce a “figura parental” dentro de nós? Parece redutor enclausurá-la a um “papel” que desempenhamos a partir do momento em que um bebé entra nas nossas vidas. Sem romantizações, vemos que é uma faceta da nossa identidade que acarreta novas responsabilidades práticas, como preparar os locais de trabalho para as mudanças de horário, novos destinos no “GPS”, despesas no final do mês que pertencem ao “separador mental dos filhos” e negociações sobre “quem faz o quê” para garantir que acabamos o dia com os “mínimos olímpicos” das necessidades básicas das nossas crianças e jovens assegurados. Contudo, nas “entrelinhas” de tudo isto, quando damos por nós, de forma mais ou menos consciente, percebemos que somos além do que fazemos, e é sobre esse lugar de “ser”, mais interior, que escrevemos hoje.

A parte ansiosa

Quantas vezes, ao nos tornarmos figuras parentais, sentimos a pressão de garantir que está tudo “sob controlo”? Que temos de ter o máximo de conhecimento possível, que nada pode falhar nos cuidados, nos marcos de desenvolvimento, e que temos de estar “sempre lá”? Neste processo, damos por nós frustrados porque as rotinas não estão organizadas e é difícil saber com quem contar para nos apoiar, seja porque o nosso par parental tem uma visão diferente de como devíamos cuidar ou educar, seja porque pedir ajuda externa parece impossível ou até uma “fraqueza”. Nessas horas, emerge uma parte ansiosa que nos diz que temos de priorizar e dar o melhor às nossas crianças e jovens, inclusive deixar de ter ou de transparecer tanta ansiedade, porque isso não é “bom para eles”. Muitos de nós já tínhamos uma relação crítica com a nossa ansiedade muito antes da parentalidade. Outros assustamo-nos porque nunca a tínhamos sentido “assim” até aqui.

A parte zangada

A parentalidade vem também com uma série de “nãos” difíceis de aceitar. Quando a criança ou jovem está impaciente ou insatisfeita, quando o nosso par parental nos faz reparos de que faltou fazer x ou y, quando a escola, o médico ou a família nos dizem para fazer “mais” ou “melhor”… em cima do nosso cansaço e esforço, sabemos que nos vai “saltar a tampa”. Surge uma parte zangada porque os nossos limites foram ultrapassados, porque sentimos injustiça. E tantas vezes essa zanga sai em “formatos” de que não nos orgulhamos, o tal “perder a razão”, e afasta os outros de nos compreenderem.

A parte triste

Há também momentos em que nos damos conta de como gostávamos que as coisas fossem diferentes. Sentimos que perdemos quem éramos antes dos filhos: nas amizades, na vida romântica, na relação com a família de origem, na carreira, na comunidade. Já não somos os mesmos e há sonhos e expectativas que não se concretizaram. “Seguir em frente” nem sempre chega para lidar com isto. Mesmo quando tentamos desligar-nos, as saudades e a solidão não ficam totalmente adormecidas. A parte que está triste continua a existir.

A culpa e a vergonha

E não esqueçamos as vezes em que nos apanhamos a sentir culpa ou vergonha por dizermos, pensarmos ou fazermos coisas de que nos arrependemos, coisas que jurámos que nunca faríamos como figuras parentais. Juntamos a isto as críticas vindas de fora (redes sociais, família, cultura da parentalidade) e a nossa própria autocrítica. De repente, refletir sobre a parentalidade já não é espaço de crescimento, mas de castigo.

E se estas partes fizessem sentido?

O convite que nos fazemos é este: reparemos que a parentalidade ativa várias partes emocionais e relacionais em nós. Isso acontece a todos. E essas partes coexistem com a curiosidade, a alegria, a realização e o amor que também vivemos, quando celebramos as primeiras palavras, os primeiros passos, as amizades, ou quando sentimos gratidão pela nossa rede de suporte.

Sim, estas partes podem ser desconfortáveis. Mas senti-las não nos torna “menos” pais, nem significa que estamos a falhar. Existe uma tendência para querermos “consertar”, “apagar” ou “ignorar” aquilo que o mundo nos diz que é inconveniente, inútil ou errado. Mas todos experienciamos isto, sem exceção. E se não víssemos estas partes como sinais de “alerta” de “má parentalidade”? E se as entendêssemos como algo que faz sentido, com origens universais e pessoais válidas?

Quando nos damos esse conforto (“isto que sinto faz sentido por algum motivo, mesmo que ainda não saiba qual”), deixamos de estar sozinhos. Passamos a poder fazer escolhas mais informadas, mesmo que difíceis, equilibrando o que precisamos com o que a nossa família pede para crescer de forma saudável.

É nesse exercício de ouvir e normalizar as nossas partes que elas, curiosamente, baixam defesas e começam a ajudar-nos. É quando compreendemos a ansiedade, a zanga, a tristeza, a culpa ou a vergonha que, passo a passo e contra hábitos antigos, criamos condições para maior confiança na parentalidade. Pedimos aquele braço merecido, arriscamos fazer algo diferente em condições mais seguras, fazemos pausas antes de reagir, mudamos regras que não nos respeitam, damos e recebemos amor no que “nunca foi” e no que “ainda pode ser”. Atualizamos as nossas expectativas do que é ser “boa figura parental” para que caiba nelas a certeza de que vamos falhar, sim, e faz parte, mas também reparar imperfeitamente.


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